Um conto de terror

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EDIÇÃO NRO. 4 – 28 DE MARÇO DE 2020

Seria cômico, se não fosse irritante. O horário político dava as caras mais uma vez. Lógico que a maioria das pessoas não lembrava do formato clássico de antigamente, com figuras exóticas recitando seus números em rede nacional, onipresente em qualquer mídia. Qualquer um com menos de 40 anos via políticos em campanha como um produto transpirando marketing. Um novo shampoo, um refrigerante que agita o seu dia, um candidato a presidente… que diferença faz? A percepção das pessoas não era fruto de conscientização ou uma alienação rebelde. A mudança em como vemos políticos foi uma soma de fatores que se sucederam. Primeiro os impeachments se tornaram comuns, mostrando que qualquer argumento serve para trocar o que não nos atende. Depois, debates sensatos escassearam ainda mais (ninguém acreditou ser possível, mas foi o que aconteceu), e isso provocou uma repulsa em quem ainda tinha interesse e esperanças em encontrar boas propostas. Os últimos que insistiram formavam dois grandes grupos: os apoiadores, ativistas cegos com argumentos superficiais e circulares, e os idealistas, que insistiam em uma utopia cada vez mais anacrônica. A divisão das cidades deu início ao urbanismo ideológico. Condomínios onde um morador reforçava o perfil do outro, comércios filtrando seus clientes ostensivamente, com base em suas escolhas, escolas e universidades com seleção de alunos de acordo com suas identidades sociais e discursos. Em um primeiro olhar, a campanha dos candidatos não fazia sentido. Por quê divulgar propostas e promessas se cada gueto já tem seus escolhidos?

Em 2022, ninguém deu atenção quando o governo determinou a implantação de chips biométricos. De idosos a bebês, todos teriam sua temperatura e seus sinais vitais monitorados sem intervalos. Com a lembrança da pandemia ainda fresca, não houve restrições por parte da população. Logo no início, as poucas vozes contrárias se calaram. Acompanhar a saúde de cada um era realmente útil para evitar novos surtos, seja qual fosse a doença. “Vamos acompanhar as buscas que cada cidadão faz na internet“. O argumento por trás da decisão era que a busca por sintomas aumentava a precisão do acompanhamento biométrico: se uma pessoa procurava por “sintomas de gripe”, por exemplo, e seus dados biométricos indicavam uma variação quase imperceptível de temperatura e batimentos cardíacos, um alerta seria disparado e a observação sobre o indivíduo e seu círculo de amizades se intensificaria. Agindo rapidamente seria possível reagir antes que uma ameaça à saúde coletiva ganhasse força. Foi fácil fazer a ideia virar lei. O medo sempre é um ingrediente para conduzir massas. Não houve contestação.

Assim que a divulgação do horário político se encerrou, ele seguiu ansioso para os bastidores. “Como foi?“. Em meio a telas cobertas com gráficos e planilhas, a tradução desse pequeno caos veio do líder do time de análise de dados: “27% da audiência exposta mostrou incremento de 1,7% na frequência cardíaca. Funcionou melhor para Goiás, Santa Catarina e no extremo da zona leste de SP. Quando você comentou sobre a proposta do adversário para que o controle biométrico fosse relaxado, houve um aumento coletivo no ritmo de respiração e no fluxo sanguíneo. O aumento do cortisol mostra que o público vê a ideia de relaxamento com medo e desconforto. A única faixa de idade que não demonstrou variações nesse momento foram aqueles com mais de 72 anos.” Esfregou as mãos, sendo exposto por um hábito que não conseguia largar, e sorrindo disse: “Ok, vamos intensificar as críticas sobre o enfraquecimento do acompanhamento biométrico. O pessoal mais velho não importa.” Em 2050, o voto ainda era obrigatório.

* Navegue mais, amplie seus horizontes
* Como algumas coisas começam, sem chamar a atenção


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