Quanto custa uma vida?

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EDIÇÃO NRO. 2 – 24 DE MARÇO DE 2020

A resposta para a pergunta do título depende: é pré-pago ou pós pago? Quando uma morte acontece em decorrência de um acidente, por exemplo, e a questão vira uma ação judicial, advogados apresentam raciocínios para definir o valor da vida perdida. O que a vítima fazia? Qual era sua renda média? Por quanto tempo ainda seria produtiva? Sua carreira profissional poderia evoluir? Quantos anos ainda poderia viver? Considerando que a pessoa relacionada às contas já morreu, a matemática sugere um valor pós-pago que indenizará os que ficaram.

O pré-pago é um pouco mais delicado, já que a pessoa cuja vida precisa ganhar uma etiqueta de preço ainda está viva. E se você leu até aqui, deve estar se perguntando: “que conversa de maluco é esta?”. É o seguinte…

Há alguns dias, Roberto Justus falou em um grupo privado de WhatsApp que “12 mil mortes (por coronavírus) em 7 bilhões de habitantes é muito pouco para criar essa histeria coletiva que foi criada no mundo.” Engrossando o coro, Junior Durski, o dono do Madero, amplificou a mesma opinião, dizendo que o país “não pode parar por cinco ou sete mil mortes.”

Pare um pouco. Respire. Ok, vamos em frente.

Diante da situação atual, a MINHA lógica diz que temos que nos empenhar para protegar as pessoas e preservar a vida. MINHAS crenças reforçam este entendimento. Eu não consigo olhar para um grupo de pessoas e dizer: “desculpa aí, mas temos uma economia que não pode parar” para, logo depois, empurrá-las do penhasco.

Além disso, vale destacar que teremos “5 ou 7 mil mortes”, se adotarmos medidas bem sucedidas para combater o vírus, mas se abrirmos as porteiras do inferno, as mortes poderão catastroficamente gigantes. (UPDATE: quase outubro, mais de 130 mil mortos até agora).

Maaaaas… vamos jogar um pouco com a linha de pensamento dessas duas figuras, só pra eu poder escrever mais um pouco…

Há poucos dias, a Bloomberg afirmou que 60% do setor de varejo da China pode falir em 6 meses. Os poucos comércios que reabriram na região, em áreas de pouco risco, não veem a demanda se recuperar, pois os consumidores ainda estão hesitantes em sair de casa. Acontece na China… vai acontecer na Itália, Alemanha, EUA e no Brasil. Quem sobreviver, vai enfrentar a falta de clientes quando a rotina voltar. Alguns estarão com medo de ir para as ruas, outros tantos, falidos.

O quadro pós Coronavírus pode ser muito pior. Guilherme Benchimol, o CEO da XP Investimentos, fez uma previsão de que poderemos ter 40% de desempregados ao fim da crise. Analistas dos EUA já falam em recessão (queda do PIB por dois ou mais trimestres consecutivos) e alguns em depressão, que compreende os reflexos da crise em tudo que nos rodeia).

Há muito chute, medo e estupidez, mas é fato que todo mundo ficará mais pobre, que haverá menos consumo e que a economia global demorará para se recuperar. Teremos pessoas com fome. Suicídios aumentarão. A criminalidade também vai crescer e, entre outros prejuízos, causará mortes. Com a calculadora em mãos, este é o cenário sobre o qual se apoia a ideia de seguir com a vida normal, fazendo vista grossa para as mortes decorrentes desta liberdade.

Lógico que a história e a esperança mostram que há vida após o caos, mas a contabilidade só vê poesia nos números. É só dar um preço para as vidas que estão no caminho do crescimento que as contas fecham e o resto se encaixa.

E aí, com tudo isso na cabeça, você consegue entender o ponto de vista do Justus e do Durski e fazer uma conta que justifique tratar 5 ou 7 mil vítimas (na verdade, muuuuuito mais) como um número em uma planilha? Consegue pensar que matar seus pais, seus avós ou um punhado de amigos é – no fim das contas – um puta negócio, na linha de: “como ninguém pensou nisso antes?!?!?!”. Consegue imaginar quando vai celebrar a manutenção da economia a qualquer preço, saboreando um suculento hambúrguer no Madero?

Eu não consigo.


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