Descobertas domésticas

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EDIÇÃO NRO. 5 – 24 DE ABRIL DE 2020

Opa! Sextou!!!! Finalmente um FDS pra gente ficar em casa!

Faz mais de 15 anos que separo o lixo reciclável. O volume de embalagens sempre foi assustador. Nestes dias de quarentena, a redução de lixo é um dos sinais de que já não piso no acelerador como antes.

Outra mudança perceptível é o cabelo. No meu caso, um corte exótico. Entediado, resolvi “cortar umas pontinhas” por conta própria outro dia. Orgulhoso, exibo um corte estilo “vítima de Chernobyl” que vai durar por 2 ou 3 semanas até ficar mais discreto.

Vi pessoas dizendo que seria legal fazer aqueles risquinhos na parede para contabilizar o tempo de quarentena, como os presidiários em alguns filmes. Devia ter seguido o conselho: não faço ideia de quanto tempo passou desde que optei por ficar recluso, acho que uns 40 dias talvez.

Tropecei em um artigo com as possíveis reações ao confinamento. Alguns ficam mais produtivos, outros se deprimem. Um dos estados é o anestesiamento: você fica em suspensão, vendo tudo acontecer, sem muita reação. Já tive dias assim, já tive momentos de solidão, de tristeza, de criatividade. Já matei tempo vendo trailer na Netflix por horas. Há poucos dias tive que criar textos humorísticos: não consegui achar humor dentro de mim…

Uma coisa bacana que fiz foi abandonar parte do noticiário. Nos primeiros dias, consumia portais, newsletters e TV com voracidade. Isso te derruba um pouco, já que a maioria do conteúdo não é exatamente positiva. Enfim… hoje, política e COVID ficam somente a leitura das manchetes e não creio que aquilo que eu ignoro fará muita falta.

Minha amizade com a vassoura está mais intensa. Limpo a casa numa frequência que está perto de virar TOC. Descobri que a poeira se esconde enquanto eu banco a dona-de-casa e volta assim que eu acabo de passar o pano. Outro caso que a ciência deveria estudar é a louça. Suspeito que ela se reproduza quando ninguém tá olhando… só isso explica como uma pessoa que mora sozinha passa 2/3 da vida na pia da cozinha.

Outro dia tive uma reunião com um cliente pelo Zoom, coisa de 4-5 pessoas. Um deles abriu o vídeo e os outros gritaram: “Sem vídeo! Não me preparei para aparecer!”. Num texto qualquer, a autora dizia que temos que nos “produzir” para levar o lixo na rua, assim mantemos uma relação de sanidade com a sociedade. Cada um, cada um… suspeito que a realidade tem mais meias sujas, cuecas velhas e camisetas furadas em tempo integral.

Fico pensando nas mulheres em geral, que tem necessidades estéticas contínuas. Mão, pé, cabelo, depilação… umas ignoram o isolamento e dão um jeito de fazer o que precisam, outras fazem auto-serviço… não creio que existam muitas pessoas virando o Tom Hanks no “Náufrago”, largando barba e cabelo aos cuidados da natureza ou arrancando dentes com lâmina de patins, mas é algo a se pensar.

Tenho saído somente quando a comida acaba e começo a ter delírios causados pelo jejum prolongado. A sensação é de morar no Alaska, no meio do mato. Na vida real, pego carteira e celular e sigo para o supermercado, mas na imaginação me sinto como aqueles caras que pegam uma escopeta, uma machadinha, algumas peles e saem da cabana para enfrentar a floresta em busca de caça… meio Leonardo di Caprio naquele filme do urso… bom, nada a ver, já que ele não sai para caçar… mas explica o visual.

Acho que é isso. Tem solidão de vez em quando. Tem saudade do meu cachorro que já não está mais aqui. Tem também saudade de outro cachorro que não é meu – foi presente – mas que “é meu” mesmo de longe, já que a presenteada tem outras prioridades – coitado do cachorro – e eu, carente convicto, sempre fui o humano escolhido pela fera como “humano preferido”. Tem saudade de gente que preciso ver de perto, mas não posso por causa de tudo isso que vivemos. Mas aí o texto ia ficar dramático… e gosto mais quando chego no final e vejo que ficou leve. Me sinto melhor! 😉

É issaê, gente, sextou!


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2 thoughts on “Descobertas domésticas”

  1. João Lambert disse:

    Belo texto! Garanto que todo mundo se vê um pouquinho dentro disso tudo! Parabéns!

  2. Nader disse:

    Estou me sentindo como se tivesse 15 anos outra vez: cabelo comprido, sem dinheiro e sem poder sair de casa.

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